Pelo direito de dizer o que se pensa

Há algumas semanas, o site Popular Science publicou um texto explicando a razão de não aceitar mais comentários nos novos textos, daquele dia em diante. “Comentários podem ser ruins para a ciência. É por isso que, aqui no PopularScience.com, nós estamos encerrando-os”, dizia o primeiro parágrafo. A decisão foi atribuída ao excesso de trolls e spambots, que inundavam um espaço dedicado à reflexão e ao debate de ideias. E, apesar de respeitar os argumentos dos editores, discordo da decisão tomada por eles.

No caso da PopSci, entre as justificativas foi citado um estudo realizado na Universidade de Wisconsin-Madison por Dominique Brossard e Dietram A. Scheufele, que apontava que os comentários grosseiros ou mais duros poderiam distorcer de maneira significativa a percepção dos leitores sobre o texto principal, causando impacto em seu entendimento sobre a ciência.

Mas daí fica a pergunta: por que não no site? E mais: se comentários são tão ruins assim para a ciência, por que outros sites não fazem o mesmo?

De acordo com os editores, a partir do momento em que se considera que os comentários formatam a opinião pública, que por sua vez formata as políticas públicas, que consequentemente determinam como, se e quais pesquisas serão financiadas, então a responsabilidade fica muito maior. O texto termina com um pedido para que os leitores continuem interagindo com a publicação, mas por outros meios, como redes sociais e e-mails. Mas daí fica a pergunta: por que não no site? E mais: se comentários são tão ruins assim para a ciência, por que outros sites não fazem o mesmo?

Talvez porque os comentários sejam menos ruins para a ciência e muito mais para a autoestima da equipe do PopSci, que certamente deve estar cansada das trollagens constantes, citadas em sua justificativa. Por um momento eu penso: quem pode culpá-los?

Não é fácil se manter na mira constante de pessoas que muitas vezes não se dão ao trabalho de realmente ler o que você escreveu, que tiram conclusões apressadas a partir de um título e no máximo uma linha fina, que fazem questão de distorcer o que você escreveu de acordo com o que eles conseguiram interpretar – e que geralmente não tem nada a ver com a intenção inicial do autor -, ou ainda que não entendem que o autor de um texto tem direito à opinião – especialmente quando a assinatura dele está ali -, ainda que ela não seja compartilhada pelos leitores ou pela publicação em si. É neste momento que eu me lembro de uma máxima aplicável a inúmeras situações, inclusive à exposição pública de ideias:

“Se não sabe brincar, não desce para o play”.

Os trolls vencem

No caso específico da PopSci, a equipe do site resolveu descer para o play e simplesmente colocar um cadeado no portão, para poder brincar sozinha. Em resumo, os trolls levaram a melhor: se eles não podem comentar, ninguém mais pode. Acabou o debate, acabou a troca de ideias, acabou a liberdade de dizer o que se pensa, independentemente se você está concordando ou discordando do outro. Pelo menos no domínio deles.

O curioso, entretanto, é que não é o conteúdo dos comentários que importa, segundo eles, mas sim o tom adotado.

A dupla de pesquisadores Dominique Brossard e Dietram A. Scheufele, responsável pela pesquisa que ajudou a fundamentar a decisão do Popular Science, também escreveu um artigo para o The New York Times. No texto, eles explicam que “em se tratando de ler e entender novas histórias online, o meio pode ter um efeito surpreendentemente potente na mensagem”. O curioso, entretanto, é que não é o conteúdo dos comentários que importa, segundo eles, mas sim o tom adotado.

“Nosso cenário emergente de mídia online criou um novo fórum público, sem as normas sociais tradicionais e a auto-regulação que tipicamente governam a maneira como nos relacionamos pessoalmente – e esse meio, cada vez mais, formata tanto o que sabemos quanto o que nos pensamos que sabemos”, diz o artigo.

Basicamente, as pessoas tendem a perder o filtro quando estão em frente ao computador (tablet ou smartphone, que seja). Se no mundo real as pessoas costumam ter um pouco mais de cuidado com o que dizem, e não saem por aí ofendendo os outros sem motivo aparente, no mundo virtual qualquer um pode se tornar um especialista e dono da verdade, ainda mais quando se tem aquela sensação automática de que se é ouvido.

Enquanto há quem adote a saída mais fácil e opte por simplesmente proibir comentários, há outras alternativas para lidar com trollagens e afins, como mostra a artista Vi Hart no vídeo Vi Hart’s Guide to Comments.

De uma forma bastante divertida, Vi quebra alguns dos comentários mais comuns que vemos por aí ao mostrar o que está por trás deles, lembrando que é muito fácil encontrar coragem para ofender o outro quando a interação é meramente virtual. E ainda destaca alguns tipinhos típicos, como aqueles que adoram falar mal de um autor ou do seu trabalho, porque não só acreditam que são melhores que ele, mas porque estão desesperados por atenção.

Então, em vez de simplesmente proibir comentários, é possível fazer uma escolha simples, como sugere um popular perfil do Twitter: não leia.

The Disapproval Matrix

A questão seguinte, então, é que nem todos os comentários negativos são feitos por trolls e haters. Às vezes são pessoas que apenas discordam da sua opinião e preferem fundamentar seus argumentos com informações, e não com insultos. Isso significa que, se você resolver ler os comentários, como poderá diferenciá-los uns dos outros?

A jornalista Ann Friedman tentou responder à pergunta com a criação do
The Disapproval Matrix
, uma espécie de plano cartesiano que propõe ajudar a separar os haters dos feedbacks produtivos. Os quadrantes são divididos entre aqueles a quem você deve ouvir e aqueles que você deve ignorar. Ao primeiro grupo pertencem os críticos – pessoas que têm real conhecimento do assunto, mas não estão gostando da forma como você o trata. Suas sugestões podem ser úteis para ajustar o seu trabalho -, e os lovers – pessoas que acreditam em você, mas que também estão dando feedbacks negativos, mas racionais, porque eles querem que você aperfeiçoe seu trabalho.

No segundo grupo, aquele que deve ser ignorado, estão os frenemies – aquelas pessoas que conhecem você e o seu trabalho, mas quando fazem uma crítica, no fundo ela é direcionada a você como pessoa, e não ao seu trabalho. Em resumo, são aquelas pessoas que estão mais interessadas em detonar você do que manter um diálogo produtivo -, e os haters – aqueles que não precisam de argumentos racionais para detonar você e o seu trabalho, e costumam fazer isso sem mesmo saber do que estão falando. O conselho de Ann?

“Ignore! Interagir com eles não vai tornar você melhor no que você faz. E fique tranquilo, pois ter haters é a prova de que seu trabalho está encontrando uma grande audiência e incentivando conversas”.

tumblr_mlzuxbQyKw1qjzfl0o1_1280

Uma banana para o leitor

Em abril de 2011, o site Ars Technica realizou um excelente experimento com seus leitores, confirmando o que todo autor/editor suspeita em algum momento: a maioria realmente não se dá ao trabalho de ler a íntegra de um texto antes de postar um comentário. A comprovação foi feita com a publicação do artigo Guns at home more likely to be used stupidly than in self-defense (Armas em casa são mais suscetíveis de serem utilizadas estupidamente do que em autodefesa), discutindo se faz sentindo ter armas em casa, do ponto de vista da saúde pública.

Lá pelo final do sexto parágrafo, John Timmer, o autor do texto, escreve o seguinte:

“Se você leu até aqui, por favor, mencione Bananas em seu comentário abaixo. Nós temos certeza de que 90% das pessoas que responderão a esta história nem a leram primeiro”.

Primeira página, 40 comentários, e nada de bananas. Segunda página, mais 40 comentários e nenhum sinal das bananas, que só começaram a ser citadas lá pela metade da terceira página, 93 comentários depois. O mais divertido é que, mesmo após a primeira banana ser revelada, seguiram-se incontáveis outros comentários com opiniões pré-fabricadas, de quem nem se deu ao trabalho de ler o texto.

K9jIy

(Imagem via)

Dois pesos e duas medidas

O mais interessante é que, apesar de todos os problemas causados por trolls e haters, alguns sites preferem manter os comentários abertos por acreditarem no direito que todos têm de expressar suas opiniões, por mais absurdas que elas sejam. A ironia está no fato de muitos leitores, então, decidirem usar este espaço para tentar calar o autor do texto, ora porque não concordam com o que foi dito, ora porque acham que o autor não tem capacidade para falar sobre determinado assunto e trouxe uma visão muito rasa, ou apenas porque não vão com a cara dele e ponto final.

Já perdi as contas de quantas vezes alguém já adotou um tom decepcionado ao usar uma frase do tipo “não esperava isso do site x” ou da revista y ou jornal z, simplesmente porque não gostou do que leu.

Quando você ouvir o Braincast 89 – Rei do Camarote: Verdade ou Mito, que foi ao ar hoje, fique atento ao trecho em que Wagner Martins – o Mr. Manson – falou sobre como estamos, cada vez mais, discutindo coisas que chegam a nós pela visão de outras pessoas, via redes sociais. “Estamos formando nossa opinião pela visão de outras pessoas, sem clicar no link e ler”, disse ele, definindo isso como uma espécie de deformação na maneira como nos informamos.

A impressão que se tem é que qualquer um pode ter e emitir uma opinião, desde que ela esteja de acordo com o que o outro espera

Mr. Manson lembra, ainda, como o algoritmo do Facebook determina as informações que chegam até nós, de acordo com nossas interações. Em outras palavras, se eu interajo mais com alguém que compartilha das minhas opiniões, atualizações de quem tem opiniões contrárias aparecerão com menor frequência em meu feed.

O resultado disso, conclui Mr. Manson, é uma formação cada vez mais distorcida, tanto da nossa opinião quanto do nosso caráter. A impressão que se tem é que qualquer um pode ter e emitir uma opinião, desde que ela esteja de acordo com o que o outro espera que você diga ou escreva.

De verdade, eu espero que os veículos que eu acompanho continuem trazendo opiniões diferentes da minha, especialmente daqueles autores de quem eu discordo completamente.  Considero isso um ótimo estímulo para buscar informações que fundamentem o meu posicionamento sobre este ou aquele assunto. Ou, como disse Voltaire,

“Eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.”

… Ainda que, para isso, seja preciso ignorar o que trolls e haters têm a dizer. Porque, a partir do momento em que uma pessoa é calada em função da sua forma de pensar, não vai demorar muito para que todos nós sejamos silenciados.

Brainstorm9Post originalmente publicado no Brainstorm #9
Twitter | Facebook | Contato | Anuncie

A verdade é perigosa

Toda vez que vejo a Rússia como país de origem de uma peça publicitária, sinto uma curiosidade irresistível de clicar no link para descobrir do que se trata. Com um marcante humor trash, raramente me decepciono. Desta vez, entretanto, fui surpreendida não pelo gosto duvidoso de seus criadores, mas pela força da mensagem desta ação criada pela agência Voskhod para o jornal online russo Znak.com: a verdade é perigosa.

Se você acompanha o noticiário internacional, sabe que a vida não anda muito fácil na Rússia, especialmente para quem fala o que pensa. No caso específico do Znak, a preocupação maior é com a liberdade de expressão, já que sua própria editora, Aksana Panova, foi presa e julgada pelo crime de “dizer a verdade’. Foi aí que surgiu a ideia de colocar pessoas comuns no lugar da jornalista.

Em ritmo de “pegadinha”, um ator faz uma pergunta qualquer às pessoas que passam por ele na rua. Que horas são, qual o nome daquela rua, etc. Ao responder, obviamente dizendo a verdade, surgem policiais e um juiz para prender e julgar os participantes, causando reações desesperadas.

Apesar de não concordar com as pegadinhas em geral, acredito que a opção por este tipo de ação foi coerente com o objetivo. Talvez por ser jornalista e reconhecer a importância da liberdade de expressão como um direito fundamental do ser humano, este vídeo acabou me sensibilizando mais do que deveria.

A julgar pelos resultados, sensibilizou também os russos: o vídeo foi um dos mais vistos no país, a audiência do Znak cresceu em 16% e subiu seis posições na classificação de web-mídias locais.

znak
znak1

Brainstorm9Post originalmente publicado no Brainstorm #9
Twitter | Facebook | Contato | Anuncie